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ARTIGOS

Os limites como forma de assegurar o desenvolvimento da autonomia da criança
Marise Pietsch Decker CRP- 12/00057

O crescente pedido de pais e professores para que se fale dos limites na educação de crianças e adolescentes, reflete a evolução que ocorreu na forma de educar. Deixou-se de fazer da forma tradicional, anterior a era Vitoriana, em que as crianças não tinham nenhum tipo de direito. A partir de 1912 com as contribuições de Maria Montessori e mais tarde com Piaget começou-se a repensar esta forma autoritária e dominadora de lidar com as crianças. Era necessário mudar, fazer diferente, dando vez e voz a cada destes pequeninos indivíduos.
O pouco tempo que hoje os pais e mães conseguem passar com seus filhos, gera um sentimento de dúvida sobre a forma de agir frente a suas manifestações de teimosia, birras, choros e insatisfações. Alguns acabam fazendo-lhes as vontades, pois não querem transformar os poucos momentos em que estão juntos num campo de batalha. Acabam caindo no oposto de acreditar que qualquer tipo de limite pode traumatizar seus filhos. Na verdade a presença de limites claros discutidos abertamente entre pais e filhos gera segurança e a certeza de que os adultos se importam com eles.
Crianças precisam que o adulto esteja presente. Precisam que o adulto norteie seu comportamento, aponte o caminho certo, oriente quando agiu mal, para que elas possam saber o que é certo e errado. Crianças nascem heterônomas, ou seja, precisam ser governadas e cuidadas pelo adulto. Elas se tornam autônomas a medida que estando presente, acompanhando e orientando, o adulto gradativamente consegue fazer com que ela vá se tornando apta a tomar decisões por si mesma e possa com o passar dos anos governar-se, estabelecer seus próprios limites.
Quanto menor a criança mais ela precisa da interferência do adulto sobre como deve se conduzir; de acordo com Ana Cristina Rangel, "por não ter ainda conquistado a lógica das relações em seu pensamento, não consegue raciocinar em função das causas, intenções boas ou más dos atos, e sim dos efeitos aparentes". Para evitar que a criança de dois anos queime as mãos no fogo não basta explicar verbalmente que irá se queimar. É preciso contê-la e dizer com firmeza que não deve fazer isto. Para crianças um pouco maiores, por volta de quatro anos, basta explicar-lhes as conseqüências.
Para que a criança vá aos poucos internalizando as regras e os limites, é preciso que haja constante comunicação com os membros da família e que ela seja confrontada com as conseqüências de seus atos, sejam eles bons ou ruins.
Piaget aponta a reparação como uma das formas mais eficientes para permitir que a criança raciocine sobre seus atos pois neste caso ela é incentivada pelo adulto a reparar o próprio erro. Secar o suco que derramou, ajuntar os papéis que picou, etc., o que lhe garante o sentimento de conquista e realização elevando a sua autoestima.
Os limites serão construídos internamente em cada criança se o adulto conseguir estabelecer com ela uma relação de afeto onde deve estar presente também o respeito do adulto pela criança. A criança que se sente respeitada na sua maneira de sentir e pensar torna-se capaz de respeitar a maneira como os adultos pensam e sentem. Cabe a família incentivar diálogos onde os filhos consigam coordenar diferentes pontos de vista, analisar os efeitos de seus atos, interagir e fazer trocas com o meio. Desta forma estes indivíduos terão construído seus limites internos, ou seja estarão aptos a tomar decisões por si mesmos, serão indivíduos autônomos.